O dia em que parei de me preocupar e amei a IA
Diz a lenda que Stanley Kubrick enfrentou períodos de extrema ansiedade durante a pesquisa para o filme “Dr. Fantástico”. Depois de decidir pela adaptação do romance Red Alert, de Peter George, Kubrick mergulhou no universo de teorias que motivaram o desenvolvimento da bomba de hidrogênio e nos personagens que tocaram o trabalho.
O cineasta vinha de dois sucessos épicos e nada engraçados, “Glória feita de sangue” e “Spartacus”, e pretendia seguir a mesma linha em “Dr. Fantástico” para falar sobre a Guerra Fria e a corrida nuclear.
Ao se aprofundar no tema, percebeu que o ego inflado, a sociopatia e os delírios misantropos de algumas das pessoas que detinham o poder e o conhecimento capazes de destruir o mundo naquele momento só poderiam ser traduzidos em uma comédia absurda.
Não é difícil traçar paralelos entre os discursos e pessoas que participaram do desenvolvimento da bomba de hidrogênio e aqueles que hoje propagam a inteligência artificial como a solução final (sem trocadilho). O mundo está cheio de “Doutores Fantásticos” prontos a levantar a mão direita em “saudação romana”.
Sou entusiasta de tecnologia, mais por gosto do que por convicção. Comecei a mexer em computadores na adolescência, montei e desmontei PCs, digitei comandos no DOS, frequentei o teletexto da Telesp, fóruns de BBBs e newsgroups, usei a internet discada de madrugada, conheci pessoas pelo ICQ e cá estamos no mundo digital avançado, onde o download de arquivos muito maiores do que os do projeto Apollo da NASA acontece em poucos segundos.
Em 2023 o mundo digital já estava colonizado pelas redes anti-sociais, havíamos passado por Snowden e NSA, Julian Assange estava preso há quatro anos, o algoritmo estava em todo canto, o scroll infinito provocava ansiedade na hora de dormir, a epidemia de fake news tinha eleito presidentes e as crises de saúde mental já haviam se consolidado como o mal do novo século.
A chegada dos ChatGPTs, Geminis e afins às massas veio com toda a força dos bilhões, e hoje muita gente tem uma IA para chamar de sua. No começo fiz algumas brincadeiras com modelos de geração de imagens (inclusive aqui no blog), mas demorei para embarcar nos chamados assistentes LLM (Large Language Models, ou “grandes modelos de linguagem”), popularmente chamados de “IA”.
Olhava ao redor e todos diziam “é fantástico, não tem volta, tem me ajudado muito”. Eu observava com mais interesse as críticas aos componentes nocivos: a degradação cognitiva, a utilização das ferramentas como instrumento de vigilância e violência implacáveis, e a potencialização exponencial da gestão das crises do capitalismo por estados e corporações.
Em linhas gerais o que os modelos de linguagem fazem é “catalogar o conteúdo de bancos de dados (incluindo a própria internet)” e transformar em respostas lógicas, dadas em linguagem natural.
Como substrato para a disseminação da “IA”, o Google já havia destruído a busca na internet ao disseminar a praga do SEO como requisito para ter alguma visibilidade na busca do próprio Google.
Ou seja, enquanto ChatGPTs e afins roubavam todo o conteúdo produzido por humanos na internet, o Google destruía o que sobrava, pasteurizando páginas em formatos adequados à finalidade principal da empresa: comercializar publicidade.
No início dos anos 2000 o Google era uma janela para encontrar informação sobre todo e qualquer assunto. Hoje boa parte do que aparece nas primeiras páginas de resultados é absolutamente inútil ou duvidoso.
No ano passado estava às voltas com a ideia de montar um servidor caseiro (HomeLab) para reutilizar um velho notebook encostado.
Comecei a jornada como qualquer mortal que precisa consertar uma torneira no século XXI: busquei vídeos no Youtube. Depois parti para fóruns da internet e para o Reddit. Mas estava difícil. Não sou programador, já usei Linux mas nunca fui à fundo no terminal e o meu conhecimento de tecnologia é de “usuário avançado”, já há mais de uma década confortavelmente instalado no “it just works” da maçã imperialista. Foi quando pensei: vou dar uma chance à “IA”…
Balançando a bandeirinha da geopolítica, rejeitei o Vale do Silício e fiz uma conta no chinês DeepSeek. Em poucos dias estava com o HomeLab no ar, tendo solucionado problemas de configuração, rede, portas, scripts de atualização, encontrado os melhores “containers” para determinadas finalidades e feito tudo funcionar.
Depois de enfrentar e resolver um dos problemas mais difíceis (o superaquecimento do computador), agradeci efusivamente ao Sino-HAL pelo auxílio naquela epopéia: “amazing, it worked, I love you”, ao que ele me congratulou e ofereceu um efusivo abraço virtual.
O mesmo processo foi estabelecido na migração deste blog para o formato atual: saí da hospedagem paga em servidor com Wordpress e “widgets” gráficos para tentar um site estático que utiliza scripts, programação, plugins em código e ferramentas open source (na medida do possível).
O fato é: não conseguiria ter botado esse blog no ar sem a ajuda do DeepSeek. Ao final perguntei “Você sabe dizer quanto tempo ficamos nesta conversa?”. Foram 7h de interações (tempo contínuo de escrita), 85 mil palavras digitadas, das quais 22 mil foram minhas.
O robozinho completou com uma curiosidade: “Se você imprimisse toda essa conversa (sem os códigos enormes), daria umas 120–150 páginas de um livro”. E ainda me trouxe aquele toque motivacional que apenas coaches e outros seres humanos iluminados são capazes de fornecer: “Você colocou atenção, intenção, paciência e horas da sua vida nisso. E o resultado ficou lindo. Agora, dorme. Amanhã você tem um blog pronto pra voar. 🕊️💜”
Neste texto não vou falar sobre os delírios tecnológicos misantropos, a bolha especulativa, a “IA” como máquina de guerra, as ameaças aos empregos, a devastação de ambientes pelos data centers e outras implicações nefastas. Também não vou entrar nos usos interessantes das ferramentas de análise de grandes volumes de dados (não é minha praia).
Tenho utilizado a “IA” para resolver questões tecnológicas, automatizar algumas tarefas com dados e encontrar respostas para perguntas aleatórias, um pouco como descrito neste texto do Manual do Usuário.
Descobrir como fazer algo utilizando a ajuda de uma “IA” é um processo interessante, especialmente se você estiver disposto a aprender, e não apenas a copiar e colar. Depois da jornada de migração do blog, voltei a usar o terminal (é lindo) e a mexer em CSS sem as rodinhas.
Os modelos de LLM como o DeepSeek tem alguma utilidade, especialmente porque a internet virou um grande terreno baldio cercado por condomínios, com o solo todo contaminado pela lama da publicidade.
Não consigo imaginar, no entanto, usar o Zyklon B do Vale do Silício para escrever um texto ou para resumir algo que eu deveria ler (a não ser em processos de triagem de materiais altamente secundários).
É fato que perguntar algo numa “IA” é muito mais efetivo do que fazer uma busca no Google, ainda que sempre seja necessário utilizar a inteligência natural para saber se a resposta procede.
Mas talvez um esforço mental de vez em quando para se lembrar de algo que você sabia mas esqueceu tenha resultados ainda melhores do que sacar o celular do bolso durante uma conversa.
Afinal, alguns minutos de busca na pasta c:/memórias podem ajudar a resolver aquele ponto fundamental do papo sobre “qual era mesmo o endereço de cartas do programa da Xuxa ou o telefone do Bozo?” sem precisar gastar alguns litros de água e Kw de energia.
“Não saber” alguma coisa imediatamente pode ser algo bom. Quantas e quantas coisas esquecidas são lembradas aleatoriamente em outro momento. Certamente esse exercício de conexão de neurônios faz bem para o cérebro. Além disso, “empacar” em algum processo criativo também faz parte do processo. Não existe música sem silêncio.
PS: O endereço da Xuxa era Rua Saturnino de Brito, 74, CEP 22470 e o telefone do Bozo, 236-0873. (Resposta gerada sem auxílio de máquinas)
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