A palestina global

03/04/2026
Reprodução: It Must Be Heaven / Elia Suleiman
Reprodução: It Must Be Heaven / Elia Suleiman

O último texto deste blog foi publicado há 2 anos e meio, em 6 de Outubro de 2023. Naquela noite voltei para casa tarde depois de uma festa de aniversário, liguei o computador e li no Twitter que o Hamas tinha atacado Israel. De imediato bateu um frio na espinha.

Sou filho de mãe judia, portanto judeu, mas de família secular há gerações. Soube nos meses seguintes que minha avó já se opunha às “atrocidades que Israel cometia contra os árabes”.

E o frio na espinha veio ao pensar no tamanho das atrocidades que Israel cometeria desta vez. Com o passar dos dias surgiu a angústia, alimentada pelo acompanhamento frenético de notícias no Twitter e vídeos no Youtube. O mal estar crescia com a reação da “opinião publicada” no chamado Ocidente, que apoiava o início do genocídio em Gaza.

De acordo com um estudo publicado em fevereiro deste ano, entre 7 de Outubro de 2023 e Janeiro de 2025 pelo menos 75 mil pessoas haviam sido mortas diretamente por ataques israelenses em Gaza, cerca de 4% da população do território. Mais da metade dos mortos eram mulheres, crianças e idosos.

Os ataques também foram responsáveis pelo maior número de jornalistas mortos em um conflito e pelo assassinato de quase 2 mil profissionais de saúde.

Estimativas feitas por pesquisadores da Brown University estimam que cerca de 2 milhões de pessoas tinham sido forçadas a sair de suas casas na Palestina até Outubro de 2025. Isso sem falar na infindável quantidade órfãos e mutilados, além da subnutrição e das doenças endêmicas decorrentes da destruição da infraestrutura local.

Me lembro de Angela Davis em um debate nos primeiros meses dizendo que Gaza era “a questão moral da nossa época”.

Guilherme Terreri deixou a persona de Rita Von Hunty em Setembro do ano passado para publicar um vídeo dizendo que iria fazer um hiato no trabalho, pois precisava se “reflorestar” para evitar o colapso frente ao terror.

Ele cita uma obra de Susan Sontag, “Diante da dor dos outros”, publicada no início dos anos 2000, no calor da “Guerra ao terror”. Sontag trazia uma hipótese: que nos anos seguintes estaríamos expostos a genocídios em tempo real, mas que esta exposição não produziria o horror necessário para que este genocídio fosse parado.

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A exposição em tempo real ao genocídio ainda não foi capaz de para-lo. Pelo contrário, ele se expandiu, reutilizou velhas formas e criou novas.

Vimos a destruição da Síria e a posse de um líder da Al-Qaeda apoiado pelo ocidente, o sequestro de um presidente na Venezuela, a expansão violenta de assentamentos ilegais nas Cisjordânia, a invasão e o bombardeio do Líbano, a utilização de pagers hackeados para explodir centenas de pessoas no mesmo Líbano, o assassinato de um líder espiritual no Irã, o início de uma guerra contra o mesmo Irã, o estrangulamento criminoso de Cuba, o lançamento de mísseis em barcos no Caribe, o massacre na favela da Maré, Pablo Marçal nas eleições paulistanas, milicianos encapuzados do ICE matando e sequestrando civis e por aí vai.

Vladimir Safatle, ainda em 2024, falou em sua aula inaugural na USP sobre “Pensar após Gaza”. Segundo ele, a catástrofe no território palestino era um momento de inflexão, com grande chance de resultar em uma transformação estrutural da governabilidade das crises e da subjetividade humana.

Safatle aponta que o laboratório genocidário de Gaza pretende responder às várias crises geradas pelo capitalismo: ecológica, demográfica, social, econômica, política, psíquica e epistêmica. Estabelecer a violência como parâmetro de governo e afeto político dominantes mediante a dessensibilização (diante da dor dos outros) permite “normalizar” e gerenciar estas crises para manter o capitalismo de pé.

Tanto Safatle quanto Bernice Bento falam sobre uma “Palestinização do Mundo”, mas descobri que o termo provavelmente foi usado pela primeira vez pelo cineasta Elia Suleiman, ainda em 2019, durante o lançamento do filme It Must Be Heaven.

“No meu filme It Must Be Heaven, tentei simplesmente dizer que o conflito espalhou suas imagens e efeitos pelo mundo todo, a ponto de o mundo se tornar um microcosmo da Palestina. Isso é o que eu chamo de “Palestinização” global. O filme busca dizer que violência, tensão e angústia se tornaram parte da vida cotidiana em todo o mundo. Não é mais um conflito local”. Elia Suleiman, em entrevista ao jornal egípcio Al Ahram

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Comecei o rascunho desse texto em Outubro de 2024, dizendo que “o último texto desse blog foi publicado há um ano”. Foram mais 18 meses até voltar a ele e finalmente publicar.

Não foi apenas apenas o colapso frente ao genocídio, descrito por Guilherme Terreri, mas certamente a sensação de vertigem cotidiana frente a tanto horror contribuiu com a dificuldade de expressão.

Elia Suleiman, em entrevistas mais recentes, aponta que a “palestinização do mundo” também pode significar o despertar de uma consciência sobre as origens da opressão. Ele acredita que as pessoas começam a se dar conta que quem está causando o sofrimento palestino são os mesmos que oprimem cotidianamente diversos setores das populações.

Olhando para o contexto brasileiro de 2026, não consigo ser tão otimista quanto Suleiman. Mas retomo mais uma vez o vídeo da Rita/Guilherme para trazer uma frase do final do vídeo, em que ele cita Georges Didi-Huberman (“A sobrevivência dos vagalumes”) e Virginia Woolf (“Ao farol”) e conclui:

Quando atravessamos longos momentos de escuridão e temos um clamor pelo canhão de um farol capaz de irromper a escuridão, essa expectativa pode nos cegar para algo perene e permanece que é a nossa capacidade de riscar fósforos inesperadamente no meio da escuridão.

Então este blog está no ar de novo, para que eu possa riscar meus fósforos no meio dessa escuridão.


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